Coleção

ABC Paulista

Obras oriundas do ABC, por realizadores locais.


Esta coleção reúne filmes que constroem o ABC Paulista como território vivo de memória, trabalho e imaginação.

Longe de uma representação homogênea, as obras revelam o cotidiano a partir de dentro, entre afeto, conflito, história operária e fabulação urbana.

Aqui, o cinema emerge como gesto político de narrar o território desde quem o habita.

São Bernoia, Águas Passadas, Boneca de Pano, Atos, Feliz de Estar Aqui, Evolua e Sem Palavras compõem uma coleção que afirma o ABC como espaço de criação contemporânea e de continuidade histórica no cinema brasileiro.


Águas Passadas

Denise Szabo realiza em Águas Passadas uma arqueologia política da paisagem industrial do ABC Paulista.

O filme investiga como o capitalismo industrial não apenas transformou economicamente a região, mas produziu ativamente o esquecimento sobre suas bases naturais.

Os rios canalizados e soterrados sob o asfalto tornam-se metáforas potentes para histórias apagadas, modos de vida obliterados, relações com o ambiente sacrificadas no altar do progresso.

A diretora não se contenta em denunciar a degradação ambiental; ela questiona os processos psíquicos e culturais que tornaram possível esquecer que a região era originalmente constituída por cursos d’água.

O documentário opera assim como tecnologia de memória, procurando reativar potencialidades históricas soterradas.

Atos

Vitória Tavares propõe em Atos uma investigação radical sobre o corpo como território de inscrição de forças sociais, políticas e ambientais.

O filme dissolve fronteiras entre corpo individual e corpo coletivo, entre organismo e ambiente.

A dança que percorre a obra não é performance ornamental, mas linguagem primordial através da qual o corpo negocia seu lugar no mundo.

A montagem opera justaposições entre movimentos corporais, ritmos urbanos e ciclos naturais, sugerindo que cidade, mata e corpo são intensidades que se co-produzem.

Esta é uma obra que recusa tanto o determinismo biológico quanto ilusões de autonomia absoluta, propondo em seu lugar uma política relacional do corpo.

Boneca de Pano

Fernando Moura utiliza o universo do Sítio do Picapau Amarelo como arquivo cultural a ser interrogado criticamente.

Boneca de Pano acompanha Maria Helena em seu teste para uma nova adaptação televisiva, expondo as tensões entre desejo artístico e indústria cultural.

O filme investiga como a indústria do entretenimento produz subjetividades, oferecendo modelos limitados de ser jovem e mulher no Brasil.

A boneca de pano do título torna-se metáfora das violências sutis que essa indústria opera sobre corpos e sonhos – como são costurados, moldados, ajustados a expectativas.

A metalinguagem (filmar o ato de audicionar) permite refletir sobre os mecanismos de produção da imagem e os custos psíquicos da busca por representação.

Evolua

Evolua transforma a ficção pré-histórica em alegoria do presente: ao fazer um dinossauro descobrir a tecnologia às vésperas da extinção, o filme questiona se o avanço técnico é capaz de alterar o destino ou apenas acelerar a catástrofe.

O asteroide iminente espelha nossas próprias crises contemporâneas e desloca a ideia de progresso para um campo instável, onde evoluir não significa, necessariamente, sobreviver.

Feliz de estar aqui

Beatriz Teixeira e Marcos Brito capturam em Feliz de Estar Aqui a delicadeza e complexidade do despertar para novos afetos.

O filme acompanha Rebeca ao acordar ao lado de Ana, mulher que parece habitar tanto o presente quanto suas memórias.

A narrativa investiga a zona ambígua entre amizade e desejo, entre afeto estabelecido e paixão nascente, recusando categorizações precipitadas.

Essa recusa não é evasiva, mas politicamente potente: afirma que nem todo vínculo precisa se enquadrar nas categorias disponíveis, que há formas de relação que escapam às prescrições heteronormativas sem necessariamente se consolidar em identidades fixas alternativas.

O quarto funciona como espaço protegido de experimentação, mas os diretores sabem que eventualmente será preciso negociar essas descobertas com um mundo não necessariamente hospitaleiro.

São Bernoia

Luca Scupino realiza em São Bernoia um gesto de memória generoso e politicamente necessário sobre as juventudes operárias do ABC Paulista no final dos anos 1970.

O filme recupera São Bernardo do Campo não apenas como cenário geográfico, mas como epicentro simbólico de transformações políticas, culturais e existenciais.

A decisão dos amigos de filmar uma tarde em Super-8 funciona como dispositivo metacinematográfico que permite refletir sobre os próprios meios de produção de imagem.

O formato amador é tratado não como fetiche nostálgico, mas como tecnologia de resistência que permitiu à classe trabalhadora produzir sua própria imagem, seu próprio arquivo.

Scupino propõe que o cinema é sempre, fundamentalmente, sobre o direito de narrar a si mesmo.

#7 Sem palavras

Em #7 Sem Palavras, César F. P. Falkenburg investiga o silêncio não como ausência, mas como linguagem.

A recusa do diálogo verbal desloca o centro da experiência cinematográfica para o corpo: o que se percebe, o que se sente, o que se aprende sem nomear.

A linguagem econômica e atenta transforma o filme em um exercício de observação radical.

Sem Palavras propõe outro regime de atenção, em que o cinema não explica, mas acompanha.

Um gesto delicado que aposta na potência do olhar e na política do não-dito.

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