Campanha Orgulho 🏳️🌈
Seguindo com as celebrações do Mês do Orgulho no VERA, trazemos uma conversa com Henrique Domingues e Pedro H Machado, de Peixes Elétricos, curta estudantil e experimental que traz uma nova perspectiva ao surrealismo queer.
Você pode conferir também nossa conversa com Roberto Simão, de Espelho da Memória, aqui.

Conte um pouco sobre o que sua obra significa para você
Pedro: Minha obra é livre, não se apega a nenhuma norma ou saudosismo. Às vezes, existe um caminho bem fácil e seguro para ir, mas eu sempre tendo a escolher aquele mais provocativo. É sobre provocar e não sobre ser confortável. Gosto de pensar que as pessoas ao assistirem minhas criações vão ser levadas para lugares que nunca pensaram em estar.
Henrique: O Peixes Elétricos foi uma espécie de pontapé inicial na nossa produção, que formou um grupo de pessoas que tinham vontades parecidas com a gente dentro do cinema. E foi muito feliz ver Curitiba em tela do nosso jeito, de levar a nossa visão da cidade para as outras pessoas, às vezes até de outros lugares do Brasil, e sentir que a gente não tá sozinho, tem muitas vozes dissidentes que entendem o diálogo que estamos tentando propor e embarcam junto na viagem.
Como sua identidade desviante – de gênero e/ou sexualidade – imprime na sua criação?
P: Sinto que é muito mais divertido criar a partir de uma lógica queer. Tem mais desejo, mais vontade de existir em um mundo onde tudo pode (e vai) acontecer, é a nossa chance de construir uma realidade menos chata e normie. Acho que possuímos uma sensibilidade estética particular, que nos ajuda a navegar por histórias e personagens que nem sempre são fáceis, mas que sempre podem ser originais e icônicos.
H: É uma forma de ver o mundo e isso é inescapável. A gente olha pras coisas de um jeito singular, olha pros cantinhos que as pessoas não-dissidentes não olhariam. A gente transforma o mundo em nosso a partir da visão.

Qual a melhor maneira de celebrarmos essas identidades?
P: Acho que não focar apenas nas vulnerabilidades que obviamente existem, mas sim em criar personagens e situações complexas, onde as vivências dissidentes se igualem a todas as outras, sejam elas boas ou ruins.
Me interesso muito por personagens ambíguas, que transitam entre o moralmente correto e a malandragem, por exemplo. Essas identidades podem ser agentes do caos, e não somente vítimas, e isso é lindo!
H: Tem uma coisa no Peixes Elétricos que nenhum dos personagens é rotulado em termos de gênero ou sexualidade. Tudo é muito fluído. Acho que apostar nessas identidades que transitam é muito importante pro cinema, porque abre um leque de possibilidades infinito pra cada subjetividade em cena
Na época em que vivemos, estão ativamente tentando apagar nossas criações e subjetividades. Na sua opinião, quais iniciativas concretas devem ser criadas ou fomentadas para que a produção audiovisual LGBTQIA+ cresça e floresça?
P: Enxergo o cinema LGBTQIA+, especialmente o brasileiro, dos últimos 10 anos como uma força em ascensão, principalmente por conta de editais públicos e cotas. Mas tudo é muito opaco; lógico, pode chegar alguém no governo amanhã e acabar com tudo.
Acho que, para nossas criações se enraizarem na cultura/indústria ainda mais, a comunidade precisa se unir e se apoiar entre si, contratar e dar mais chances profissionais, além de obviamente consumir as nossas produções! Porque sabemos que o poder (do audiovisual) está na mão de heteros elitizados, então bora se articular.
H: Cotas em editais públicos, especialmente para pessoas trans, que hoje é uma coisa que não temos aqui no Paraná. Uma medida assim, simples, fomenta profissionalização e penso que esse deve ser nosso foco. Além disso, dar oportunidade dentro de cargos técnicos em produções.
É algo que particularmente tenho dificuldade, adentrar o mercado do cinema, então pessoas que tem esse poder de contratação deviam estar mais ligadas a quem dar essas oportunidades, que todos sabemos não serem abundantes, mas que estão sempre rodando nas mesmas mãos.

