Campanha Orgulho 🏳️🌈
Para celebrar o Mês do Orgulho, o VERA destaca histórias que evidenciam a força de narrativas LGBTQIA+, que constroem um cinema mais autêntico e plural.
Por isso, trazemos uma entrevista com Roberto Simão, diretor de Espelho da Memória junto de Filipe Travanca, onde discutimos as relações entre identidades dissidentes e a criação artística, a representação de personagens queer e mais.

Conte um pouco sobre o que sua obra significa para você
Sou co-autor e co-diretor de Espelho da Memória, junto de Filipe Travanca, e posso dizer que esse filme é, literalmente, um espelho de nossas infâncias e juventudes.
Crescemos cercados por mulheres que são ícones de ser e estar no mundo e que, de algum forma, nos inspiraram o desejo de narrar. A Vó Cida é um misto dessas mulheres que nos cuidaram, que nos ensinaram e que nos provocaram a sermos maiores, a irmos mais longe.
Eu e Filipe estamos impressos na paixão de Guinho por animações e novelas, em sua descoberta sexual através do audiovisual, em sua atuação atrás das câmeras. O filme é nossa história ressignificada, condensada, poetizada.
Assistir a Espelho é como ter o registro resumido da nossa experiência de mundo mediado pelo audiovisual. Fizemos esse curta não foi à toa, ele é fruto de toda essa inspiração pela qual fomos cercados desde a infância, muito disso através de nossas famílias, ao redor das mesas dos almoços de domingo.
Como o cinema ajudou na construção de sua identidade?
Basta assistir a “Espelho da Memória”, está tudo lá. Sou o Guinho que se excita ao ver o peito nu e peludo do Pescador Parrudo de Kubanacan, assim como o jovem que vibrou e temeu o possível beijo entre Júnior e o peão Zeca em América.
A tevê foi uma vitrine que me fez descobrir sensações insuspeitas diante de enredos que demonstraram afetos que mobilizaram meu inconsciente. Ao longo do tempo, fui entendendo esses desejos e fui me aproximando de narrativas que explorassem minhas curiosidades. Um desejo de assistir para me compreender mais, para entender minhas possibilidades.
É de Filipe, co-autor e co-diretor do curta, a referência de Brokeback Mountain. Ele assistiu ao filme na adolescência e foi impactado por aquele amor não realizado. A sina de amores homossexuais trágicos deixava um gosto amargo quando pensávamos em exercer nossos desejos. É a contemporaneidade que traz obras com finais possíveis, positivos, estimulantes.
É por isso também que desejávamos que Espelho fizesse parte dessa geração de histórias possíveis. Queríamos contar uma narrativa de acolhimento, em que o desejo e sua realização são possíveis e são suportados pela família da personagem. É o básico que esperamos que todas as pessoas tenham e vamos continuar reforçando isso em nossas histórias até que esse cenário seja, de fato, uma realidade.

Como essa identidade desviante – de gênero e/ou sexualidade – imprime na sua criação?
Desde a concepção da história até a composição da equipe, todas as escolhas estão entranhadas pela minha experiência enquanto pessoa não-binária homossexual – digo isso enquanto co-autor e co-diretor da obra. Em Espelho da Memória, o jovem narrador é gay e a sua avó, a protagonista, é bissexual.
Ambos fogem à norma, não só pela sexualidade, mas por suas posturas diante da vida, e isso acaba os unindo. A narrativa é envolta por um afeto que parte dessas pessoas fora da norma padrão não recebem. No meu caminho, encontrei quem me acolheu e me abraçou como sou; Espelho carrega um pouco desse sentimento, dessa compreensão, desse amor.
E só conseguimos contar isso com tanta verdade tudo porque tivemos uma equipe diversa, talentosa e dedicada. Toda equipe se identificou em algum nível com nossa história e isso está em cada detalhe do que vemos e ouvimos.
Graças a essas pessoas contamos uma história da qual nos orgulhamos muito.
Qual a melhor maneira de celebrarmos essas individualidades?
Manter e retratar nossas personagens vivas, como seres que desejam, que lutam, que se frustram e que, independente do que são, encontram afeto, é um caminho que eu acredito ser frutífero para representarmos e celebrarmos nossas identidades. Já vimos várias histórias de personagens símbolos de resistência, de coragem, de força, e elas devem continuar a existir.
Mas em paralelo, também acredito na força das histórias cotidianas, aquelas aparentemente banais, que acontecem dentro de casa, que expõem as pequenas falhas e contradições de toda pessoa comum. É no dia-a-dia que nos construímos, que nos deparamos e lidamos com desafios que nos formam o caráter, nossa subjetividade.
É uma grande conquista quando nos identificamos com personagens que são humanas, com suas subjetividades expostas de forma honesta. Desejamos nos conectar com as histórias que assistimos e ganhamos muito, enquanto comunidade, quando isso acontece e extravasa nossa bolha.

Na época em que vivemos, estão ativamente tentando apagar nossas criações e subjetividades. Na sua opinião, quais iniciativas concretas devem ser criadas ou fomentadas para que a produção audiovisual LGBTQIA+ cresça e floresça?
Basta acessar o TikTok para que seja possível ter contato com alguma narrativa audiovisual LGBTQIA+. Ali, as narrativas têm formatos e níveis de produção variados, podemos dizer que a maior parte delas não tem grande valor agregado e não é isso que importa. Quem se sobressai na plataforma é quem tem uma história cativante para contar.
Quanto mais um conteúdo é visto, mais o algoritmo o recomenda. É assim que se cria um viral. Tudo isso pra dizer que, nossas narrativas crescem e florescem quando são vistas, quando o público tem acesso a elas. Muitas pessoas estão produzindo suas histórias – sejam elas curtas ou longas, com ou sem apoio de leis de incentivo -, mas quem as está distribuindo e exibindo? Iniciativas que sejam vitrine para essas produções, que levem a públicos diversos nossas histórias diversas, merecem ser estimuladas.
Não é à toa que o VERA existe e se consolida como uma plataforma relevante: nela temos filmes variados, de pessoas diversas, que contam, ao seu modo, suas ficções e verdades, de forma que o público possa assisti-los quando e onde estiver, gratuitamente. São iniciativas assim que estimulam criadores como eu a continuar produzindo.
A memória permeia sua obra, desde a própria narrativa à linguagem fotográfica optada. Durante a produção do curta, houve um processo de resgate de lembranças? Como foi isso?
Espelho da Memória nasceu de um argumento escrito por mim, Roberto, no início da pandemia, em 2020. Estava em São Paulo, capital, estudando audiovisual quando veio o lockdown e voltei para o interior do estado para ficar juntos dos meus familiares. Quando cheguei lá, recebi a notícia de que uma tia estava no início da doença de Alzheimer e começava a esquecer e a confundir fatos. Minha relação próxima e afetiva com essa tia, fez com que eu pensasse a minha relação com a memória.
Desde que tive um celular com câmera, eu passei a filmar familiares e amigos. Guardei muitos desses vídeos e faço inúmeros backups para não perdê-los. Esses arquivos guardam imagens muito caras para mim: elas me ajudam a me lembrar quem eu sou. Foi a partir dessa notícia que eu comecei a pensar numa história que unisse esses elementos: família e memória.
O projeto só foi ganhar vida quatro anos depois. Filipe, amigo com quem sempre tive grande identificação, partilhou comigo dessa realização se transformando em co-autor e co-diretor do curta. A história que era tão minha, naquela altura também deveria ser tão dele. Assim, revisamos o argumento discutindo parágrafo por parágrafo, relembrando nossas histórias de infância, trocando referências comuns e singulares. O argumento se fortaleceu e o roteiro ganhou vida.
Com a produção em andamento, pensamos inicialmente em utilizar imagens de arquivo dos atores selecionados, mas nenhum deles tinha as imagens que precisávamos. Utilizamos apenas algumas fotos do ator Guilherme Nunes, o Guinho adolescente, em determinadas cenas. Por fim, resolvemos gravar tudo, da infância de Guinho à sua vida adulta.
Nos ensaios com os atores, estimulamos a criação de memórias entre eles, fosse através do compartilhamento de histórias reais, fosse por meio de encenações que criavam afetos a serem recordados no set de filmagem. O resultado foi uma mistura de memórias reais e ficcionais que se transformaram numa memória comum à equipe do curta e que agora, com a distribuição do filme, se transforma mais uma vez, e definitivamente, numa memória coletiva, partilhada por todas as pessoas que o assistiram.
