
Peixes Elétricos
Pedro H. Machado · Curitiba/PR
Uma experiência queer surrealista. Sweder, um dia na cozinha de sua casa enquanto se prepara para cortar um peixe, sente-se de alguma forma tocado e assustado com o comercial que está passando na TV sobre o consumo de carne animal e a violência, decidindo então por adotar o peixe e tratá-lo como filho.




Por César F. P. Falkenburg embuscadefilmes.com.br @embuscadefimes
A história do cinema queer é composta de um desejo de disruptividade estética e narrativa, tomando a força um espaço majoritariamente utilizado para difundir ideais burgueses e hétero cis normativos. Junto de uma bagagem cinéfila, Peixes Elétricos (Pedro H. Machado, 2024) da sequência a este projeto autoral construído inicialmente tímido em obras Hollywoodianas anteriores ao Código Hays e radicalmente exposto nos anos 70 por John Waters.
Em uma articulação de espaços marginalizados e reflexões da causa vegetariana, Machado conduz sua encenação fundamentada nos valores da estética trash e camp, dando abertura expressiva para a poluição visual de cores vibrantes, sujeiras em paredes, roupas estampadas e maquiagens marcadas. A estranheza atmosférica é reforçada em manipulações na pós-produção de ruídos digitais do equipamento de captação e na edição experimental que recorta e cola o filme em jumpcuts e sobreposições.
Ainda que Peixes Elétricos busque um resultado autoral na sua mise em scène, o caráter tragicômico da narrativa fatalista é uma expressiva referência a filmografia de Gregg Araki nos anos 90 e 2000, que formou seu próprio universo surrealista de jovens melancólicos que vagam nas metrópoles em busca de liberdade e rebeldia. O referencial a Araki é uma forma de demonstrar o apreço e respeito a cineastas anteriores que abriram espaço para produção de obras transgressoras.
Peixes Elétricos é um interessante exemplo do aproveitamento do amadorismo do cinema universitário como ferramenta artística de condução formal, assumindo a falta de recursos orçamentários de equipamentos fotográficos e cenográficos por meio de uma narrativa marginal, que desvia da grande fragilidade do cinema independente: maquiar-se de produções Hollywoodianas e profissionais. Machado compreende assim que o espaço educacional é elementar para criar experimentações linguísticas sem comprometimento com um resultado lucrativo para clientes e público.

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