
Imaginação, fabulação e gesto poético
Obras que reinventam o real através da fabulação, da infância, do sonho e de gestos poéticos de criação.
Nesta coleção, o cinema se abre à fabulação como gesto poético e político. As obras reinventam o real por meio do sonho, da infância, da criação artística e de pequenas invenções do cotidiano.
A imaginação surge como resposta à insuficiência do real — não como fuga, mas como estratégia de sobrevivência sensível. Marta Consertadora de Guarda-chuva, Peixes Elétricos, AS MUSAS e Visagens e Visões constroem narrativas que transitam entre o cotidiano e o encantamento.
São filmes povoados por figuras criadoras — artistas, crianças, mulheres inventoras — que encontram no gesto poético a possibilidade de criar outros mundos possíveis.

AS MUSAS
Rosa Fernan desenvolve em”As Musas” uma reflexão sofisticada sobre criação artística e condições materiais de existência.
A protagonista Kelly navega entre o trabalho doméstico precarizado e o sonho de se tornar cantora de brega, gênero musical marginalizado mas profundamente enraizado na cultura popular.
O filme recusa visões romantizadas da inspiração artística, mostrando como a criação é sempre atravessada por determinantes sociais e econômicos.
A “musa” que Kelly encontra não é entidade etérea, mas espelho de suas próprias possibilidades e limites.
A direção constrói um realismo social permeado de elementos simbólicos, onde o cotidiano e o imaginário se contaminam mutuamente.
É um retrato sensível da complexidade da subjetividade feminina na periferia.

Marta Consertadora de Guarda Chuva
Dannyel Leite constrói em Marta Consertadora de Guarda Chuva uma fábula política sobre economias alternativas e tesourização afetiva.
Marta, na sua simplicidade aparente, encarna resistência ativa à lógica da obsolescência programada que organiza o capitalismo contemporâneo.
Seu ofício – consertar guarda-chuvas – é gesto ao mesmo tempo técnico e simbólico: afirma que vale a pena reparar, que nem tudo precisa ser novo, que há saberes do cuidado que a modernização despreza mas que permanecem necessários.
O filme mostra como gestos aparentemente triviais tornam-se políticos quando realizados num contexto de precariedade.
A feira de Santa Branca revela-se espaço onde ainda é possível encontrar redes de solidariedade que funcionam nas bordas do mercado formal.

Peixes elétricos
Pedro H. Machado constrói em Peixes Elétricos uma parábola surrealista que desnaturaliza a violência cotidiana do consumo de carne através do absurdo.
A premissa – adotar um peixe sentiente para salvá-lo de virar jantar – permite explorar as contradições morais de nossas relações com animais não-humanos.
O filme personifica o peixe, tornando-o sujeito de terror diante de seu próprio destino como alimento, e assim explicita a cisão psicológica que nos permite amar certos animais enquanto devoramos outros.
O contexto queer da relação principal não é acidental: pessoas dissidentes sexuais sabem o que é ter a própria existência tratada como mercadoria, como corpo disponível para consumo alheio.
O surrealismo da situação revela-se menos absurdo que a normalidade que permite matar sem pensar.

