
Memória, corpo e ancestralidade
Filmes que exploram o corpo como arquivo e a memória como forma de resistência e continuidade.
Os filmes Dona Beatriz Ñsîmba Vita, Espelho da Memória, Via Sacra, e Ava Kuña, Aty Kuña; Mulher Indígena, Mulher Política constroem um campo de escuta e reencontro entre o íntimo e o coletivo.
A ancestralidade se afirma como ética e estética — um modo de estar no mundo que recusa o esquecimento e transforma o visível em presença espiritual.

Ava Kuña, Aty Kuña; Mulher Indígena, Mulher Política
Este documentário coletivo realiza um gesto epistemológico importante ao recusar o lugar tradicional da antropologia como mediadora de culturas indígenas. Ava Kuña, Aty Kuña entende que a assembleia das mulheres Guarani Kaiowá não é objeto a ser documentado, mas espaço de produção política e simbólica que deve falar por si mesmo.
A abordagem poética não diminui o caráter político do filme; antes, revela que o político se manifesta tanto em discursos quanto em gestos, cantos, modos de ocupar o espaço e tecer relações.
A obra desafia separações modernas entre razão e emoção, mostrando como o pensamento crítico e o afeto se entrelaçam nas práticas políticas indígenas.
É um filme sobre protagonismo, mas também sobre os desafios da escuta e da tradução entre mundos.

Dona Beatriz Ñsîmba Vita
Catapreta realiza em Dona Beatriz Ñsîmba Vita um gesto de invocação e reencenação da história africana.
Inspirado na figura histórica de Kimpa Vita, líder religiosa e política congolesa do século XVIII, o filme propõe a clonagem como metáfora potente para estratégias de resistência negra.
Num mundo que sistematicamente apaga mulheres negras, multiplicar-se vira ato político de sobrevivência.
Mas o filme não é ingênuo sobre os perigos dessa solução – questiona se a multiplicação do mesmo resolve o problema da diferença, se a clonagem não carrega fantasmas eugênicos.
A missão divina de fundar um novo povo revela-se, no final, profundamente humana: o desejo impossível mas necessário de não estar mais sozinha.

Espelho da Memória
Travanca e Simão desenvolvem em Espelho da Memória uma reflexão comovente sobre transmissão intergeracional e tecnologias do afeto.
Através do relacionamento entre Guinho e sua avó Cida, o filme explora como a memória não é arquivo morto, mas processo vivo de reconstrução constante a partir do presente.
O uso de arquivos domésticos não tem caráter nostálgico, mas constitui tentativa de criar suporte material para aquilo que é efêmero por natureza – tonalidades afetivas, gestos, inflexões de voz que constituem a materialidade do vínculo.
A avó torna-se figura arquivística viva, depositária de saberes que não se inscrevem em registros oficiais.
O cinema revela-se aqui tecnologia de luto antecipado, maneira de preservar presença antes da partida.

