Coleção

Narrativas que refletem sobre o espaço social, a luta política e os modos de existir em comunidade, do campo à cidade.


Aqui, o cinema é compreendido como prática de mundo. As obras desta coleção refletem sobre o espaço social, a luta política e os modos de existir em comunidade, do campo à cidade.

O território aparece não apenas como paisagem, mas como corpo, memória, trabalho e disputa.

Os filmes Canto de Acauã e Lá na Frente deslocam a política para o cotidiano: um canto, uma assembleia, um gesto de trabalho, um corpo que insiste em existir.

O olhar é coletivo e sensível; a câmera se coloca junto, e não acima. São filmes que compartilham um mesmo gesto ético: filmar para existir, filmar para continuar.


Canto de Acauã

Jaya Pereira constrói em Canto de Acauã um documentário que opera uma virada decolonial na representação de comunidades quilombolas.

O filme recusa completamente o olhar antropológico tradicional, que observa de fora e explica para consumo externo. Em vez disso, habita poeticamente o território, deixando que memória, lutas e encantamentos se manifestem em seus próprios termos.

Cantos, danças e relatos não são organizados em narrativa linear explicativa, mas apresentados como fragmentos de uma cosmologia que não precisa se justificar para existir.

A retomada do território ancestral não aparece como evento passado, mas como presente contínuo, luta permanente inscrita nos corpos e nas vozes. É cinema como ato de resistência epistemológica.

Lá na frente

Márcio Andrade aborda em Lá na Frente o luto como processo sem roteiro pré-definido ou garantias de superação.

Pedro e sua mãe recebem a notícia de que Raula não vai mais chegar, e esse não-chegar desdobra-se em todos os não-chegares que constituem a experiência da perda.

O filme recusa espetacularizar a dor, filmando-a com discrição e respeito. Andrade compreende que não há forma certa de viver o luto, não há cronologia universal – há apenas tentativas, erros, retornos, recomeços.

O título situa a esperança não no presente (insuportável) nem no passado (irrecuperável), mas num futuro indefinido onde talvez seja possível carregar o morto sem ser completamente esmagado por seu peso.

É um filme sobre a política do cuidado em tempos de dor.

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