01.07.2026 · ENTREVISTA

O fantástico como forma de fabular outros mundos

Henrique Domingues e Pedro H. Machado de "Peixes Elétricos"

Henrique Domingues e Pedro H. Machado de "Peixes Elétricos"

Seguindo com as celebrações do Mês do Orgulho no VERA, trazemos uma conversa com Henrique Domingues e Pedro H Machado, de Peixes Elétricos, curta estudantil e experimental que traz uma nova perspectiva ao surrealismo queer.



Conte um pouco sobre o que sua obra significa para você

Pedro: Minha obra é livre, não se apega a nenhuma norma ou saudosismo. Às vezes, existe um caminho bem fácil e seguro para ir, mas eu sempre tendo a escolher aquele mais provocativo. É sobre provocar e não sobre ser confortável. Gosto de pensar que as pessoas ao assistirem minhas criações vão ser levadas para lugares que nunca pensaram em estar.

Henrique: O Peixes Elétricos foi uma espécie de pontapé inicial na nossa produção, que formou um grupo de pessoas que tinham vontades parecidas com a gente dentro do cinema. E foi muito feliz ver Curitiba em tela do nosso jeito, de levar a nossa visão da cidade para as outras pessoas, às vezes até de outros lugares do Brasil, e sentir que a gente não tá sozinho, tem muitas vozes dissidentes que entendem o diálogo que estamos tentando propor e embarcam junto na viagem.

Como sua identidade desviante – de gênero e/ou sexualidade – imprime na sua criação?

P: Sinto que é muito mais divertido criar a partir de uma lógica queer. Tem mais desejo, mais vontade de existir em um mundo onde tudo pode (e vai) acontecer, é a nossa chance de construir uma realidade menos chata e normie. Acho que possuímos uma sensibilidade estética particular, que nos ajuda a navegar por histórias e personagens que nem sempre são fáceis, mas que sempre podem ser originais e icônicos.


H: É uma forma de ver o mundo e isso é inescapável. A gente olha pras coisas de um jeito singular, olha pros cantinhos que as pessoas não-dissidentes não olhariam. A gente transforma o mundo em nosso a partir da visão.

Qual a melhor maneira de celebrarmos essas identidades?

P: Acho que não focar apenas nas vulnerabilidades que obviamente existem, mas sim em criar personagens e situações complexas, onde as vivências dissidentes se igualem a todas as outras, sejam elas boas ou ruins.

Me interesso muito por personagens ambíguas, que transitam entre o moralmente correto e a malandragem, por exemplo. Essas identidades podem ser agentes do caos, e não somente vítimas, e isso é lindo!


H: Tem uma coisa no Peixes Elétricos que nenhum dos personagens é rotulado em termos de gênero ou sexualidade. Tudo é muito fluído. Acho que apostar nessas identidades que transitam é muito importante pro cinema, porque abre um leque de possibilidades infinito pra cada subjetividade em cena

Pessoa sentada em uma banheira.

Na época em que vivemos, estão ativamente tentando apagar nossas criações e subjetividades. Na sua opinião, quais iniciativas concretas devem ser criadas ou fomentadas para que a produção audiovisual LGBTQIA+ cresça e floresça?

P: Enxergo o cinema LGBTQIA+, especialmente o brasileiro, dos últimos 10 anos como uma força em ascensão, principalmente por conta de editais públicos e cotas. Mas tudo é muito opaco; lógico, pode chegar alguém no governo amanhã e acabar com tudo.

Acho que, para nossas criações se enraizarem na cultura/indústria ainda mais, a comunidade precisa se unir e se apoiar entre si, contratar e dar mais chances profissionais, além de obviamente consumir as nossas produções! Porque sabemos que o poder (do audiovisual) está na mão de heteros elitizados, então bora se articular.


H: Cotas em editais públicos, especialmente para pessoas trans, que hoje é uma coisa que não temos aqui no Paraná. Uma medida assim, simples, fomenta profissionalização e penso que esse deve ser nosso foco. Além disso, dar oportunidade dentro de cargos técnicos em produções.

É algo que particularmente tenho dificuldade, adentrar o mercado do cinema, então pessoas que tem esse poder de contratação deviam estar mais ligadas a quem dar essas oportunidades, que todos sabemos não serem abundantes, mas que estão sempre rodando nas mesmas mãos.

No curta, o peixe pode ser interpretado como uma representação da banalização da carne animal. Há uma relação deliberada com a marginalização de corpos queers?

P: Sempre acho engraçadas as interpretações para o peixe. Na real, para mim, ele não significa nada. Mas existe uma coisa poderosa nos “nadas”. Ele pode ser tudo. Ele está ali para você criá-lo.


H: Nunca tinha pensado dessa forma, mas de fato é uma interpretação interessante. Acho que nunca passou pela minha cabeça a ideia da marginalização, tinham outras coisas em jogo, muito mais um estudo desse personagem principal, o Sweder, e as subjetividades esquisitas dele. Acho que o peixe trás elemento opaco pro universo narrativo que de certa forma conversa com a experiência queer de adentrar alguns espaços.

O humor do curta está dentro das estranhezas pouco sutis, de um certo absurdismo que remete ao camp. Quais foram suas referências nesse aspecto?

P: Nos últimos tempos tenho percebido como o cinema de John Waters tem influência em mim, no humor que coloco nas coisas, então eu diria que existe muito Waters ali, principalmente nas múltiplas personagens interpretadas pela Ágatha Wiggers (as atendentes que se repetem).

Para o Peixes em particular, também existe um pouco de Yorgos Lanthimos, especialmente A Favorita e Poor Things (esse na verdade nem existia na época em que gravamos, mas acho as obras entram em sintonia em algum lugar).


H: Quando escrevi esse roteiro estava obcecado pelo David Lynch, acho que fica bem claro. Acho que ele é um mestre em trazer esses elementos opacos que deixam a realidade estranha. E no fundo ele é um diretor de melodramas né? Eu amo melodramas, mas gosto ainda mais quando eles são esquisitos, quando brincam dentro do gênero.

E por que não brincar com gênero? Sejam eles cinematográficos ou identitários, as fronteiras são ilimitadas. Mas a liberdade agrega uma estranheza, e essa estranheza o que mais inspira.